sábado, 18 de outubro de 2014

O inferno são os outros mesmo

Normalmente, nas minhas abordagens de campanha, sempre encontro a maioria absoluta das pessoas bem receptiva e certas ou propensas a votar em Dilma.

Hoje, voltando pra casa, num ligeirinho, puxei assunto com o motorista. Ele desconversou, mas disse que é 'contra tudo que aí está'. Eu já nem quis alongar mais papo.

E eis que uma senhora desperta pra conversa no banco de trás e eu, inocentemente, imagino que ela irá dizer "É claro que temos que votar em Dilma, ela fez tanto por esse bairro, veja quantas unidades do Minha Casa, Minha Vida..."

Mas, nãaaaaaao... O que ouvi foi algo do mais alto grau de coxinhagem, de pensamento conservador e reacionário.

"Você acha certo homem dormir com homem e mulher com mulher?"
Eu: "Hã?"
"É isso mesmo. Ela é a favor disso."

Eu de novo não quis entrar no embate, gastar minha rica energia vital com coisas insolúveis em um tempo tão reduzido. Mas, ainda tive que ouvir:
"Ela vai é pro inferno. E todo mundo que vota nela também."

Limitei-me a dizer: "Não tem importância. Eu não acredito no inferno."
E desci.

Assim, se tiver inferno... espero que pelo menos tenha muuuuuuuuuuuuuuuito rock n'roll.


sábado, 24 de novembro de 2012

"Terra é sempre terra"



Os pequenos municípios do interior do Nordeste ainda vivem sob o signo do coronelismo. A conservação da miséria e a escancarada concentração fundiária ainda subsistem mesmo com as inúmeras forças de contestação dessa ordem estabelecida, surgidas nos movimentos sociais de base, igrejas, sindicatos e imprensa livre. 

Em municípios predominante rurais, elementos urbanos aparecem para incrementar a rede de trocas entre o poder privado decadente e o poder público fortalecido.  Os governadores já não dominam como no passado, os recursos, agora federalizados, são repassados diretamente aos municípios. Os prefeitos são coroneis deles mesmos. São os novos donatários do Brasil. Acumulam bens. Compram fazendas. “Terra é sempre terra”.

A relação de compromisso entre poderes público e privado é latente. O poder privado interfere sobremaneira na condução das campanhas eleitorais, financiando-as, para garantir os benefícios posteriores. Retroalimentam-se. Amigos, compadres e afins são beneficiados, seja ocupando cargos públicos, seja prestando serviço à prefeitura.

Essa herança do sistema colonial de grande exploração agrícola, de trabalho servil, coloca o eleitorado numa situação de dependência direta. Utiliza-se do dinheiro, dos serviços e dos cargos públicos para ações marcadamente partidárias.
“Este procedimento de utilização direta ou indireta dos recursos públicos mantém, alimenta e conserva a “relação de reciprocidade” e acaba por atender mais à sustentação das lideranças dos “coronéis modernos” em detrimento da implantação, organização e democratização de políticas públicas voltadas para o cidadão e para a sociedade.”   [Celina Vargas do Amaral Peixoto]
Os serviços públicos são personificados. Os papeis dos agentes públicos são deturpados.

Vereador-ambulância é uma denominação auto-definível daqueles pretensos legisladores que fatiam o serviço de saúde, transportando pacientes para outras cidades ou intermediando as marcações de consultas no posto médico. 

Daí, surge o voto por dominação, por gratidão ou por reciprocidade. O voto de cabresto. 

As figuras de prefeitos e vereadores, que se travestem de pessoas do povo, com linguajar e atitudes próximas das camadas mais populares, são elementos de conservação da dominação carismática. "Voto em Fulano, porque ele toma pinga com a gente!". Confunde-se o público com o privado. A Prefeitura é a extensão da casa. Então, atender no órgão público ou na fazenda não faz muita diferença. 

Para Victor Nunes Leal, autor de “Coronelismo, Enxada e Voto” (1948), o coronelismo só terá fim com uma alteração profunda da nossa estrutura agrária excludente.

A melhoria dos serviços públicos, a fiscalização, a formação para a participação são urgentes. Só haverá fortalecimento da democracia, quando os espaços da barganha política, dos apadrinhamentos forem diminuindo, quando houver uma gestão pública que atenda os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. 

Viva o Artigo 37! 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Dos sorrisos e das obrigações de ser feliz


"Não. Hoje eu não preciso rir.
Hoje eu não quero saber de ser feliz.
Me deixa aproveitar minha tristeza.
Me deixa contemplar minha dor."



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Meninas boas vão para o céu... Meninas más vão pra onde quiserem...

Desde que terminei o curso de Letras há alguns anos (mentira! muitos anos! 11 pra ser mais precisa), tenho tentado me manter fiel à leitura e isso não é tarefa fácil. Mulheres modernas têm que fazer malabarismos para serem modernas. Mesmo as que não têm filhos (como eu!), acabam tendo triplas jornadas, especialmente se forem professoras (como eu também!). E por serem professoras, nesse caso, deveriam ler o tempo todo, mas nem sempre têm tempo! Santa contradição!

Então, a fila do banco, a viagem pro trabalho, a espera no dentista, todas essas migalhas de tempo fracionado, dependem de um esforço, de uma disciplina quase jesuítica pra não serem desperdiçadas.

Nesse caso, eu me contento com migalhas. E devoro com fome de tudo.

É o que Mario Vargas Llosa está me ensinando com o seu "Travessuras da Menina Má". É um romance delicioso, de narrativa concisa e cheio de tudo o que mais gosto numa boa história: amor sem pieguices, mas com emoção; pano de fundo histórico; detalhes na medida certa, capazes de nos fazer estar no lugar descrito: Peru, Paris, Londres, Tóquio... e o que mais houver nessa incansável busca pela felicidade, ou pela sobrevivência útil, de Ricardito e sua chilenita. Ela vai pra onde quiser...

E eu, vou até onde Llosa me levar...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Das Cinzas

O mundo só não é cor-de-rosa, como dá indícios de estar de pernas pro ar... E eu nem estou falando dos acontecimentos naturais, que como o próprio nome diz, são naturais... O buraco não é em cima, como o do vulcão da Islândia, é bem mais embaixo e tão devastador quanto...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Menina da Lua


Leve na lembrança
A singela melodia que eu fiz
Pra ti, ó bem amada
Princesa, olhos d'água
Menina da lua

Quero te ver clara
Clareando a noite intensa deste amor
O céu é teu sorriso
No branco do teu rosto
A irradiar ternura

Quero que desprendas
De qualquer temor que sintas
Tens o teu escudo
O teu tear
Tens na mão, querida
A semente
De uma flor que inspira um beijo ardente
Um convite para amar

Leve na lembrança
A singela melodia que eu fiz
Pra ti, ó bem amada
Princesa, olhos d'água
Menina linda

[Maria Rita]

domingo, 1 de novembro de 2009

Evaporar


Tempo a gente tem
Quanto a gente dá
Corre o que correr
Custa o que custar

Tempo a gente dá
Quanto a gente tem
Custa o que correr
Corre o que custar

O tempo que eu perdi
Só agora eu sei
Aprender a dar foi o que ganhei
E ando ainda atrás desse tempo ter
Pude não correr pra ele me encontrar
Não se mexer
Beija-flor no ar

O rio fica lá, a água é que correu
Chega na maré, ele vira mar
Como se morrer fosse desaguar
Derramar no céu, seu purificar
Deixar pra trás sais e minerais
Evaporar

[Rodrigo Amarante]