quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Anacrônimos Anônimos


Nos últimos meses, várias manifestações de estudantes das Universidades Federais foram desencadeadas Brasil afora. De apoio aos estudantes chilenos, pautas inegociáveis e ocupação dos prédios, viu-se tudo.

Nem quero entrar no mérito da discussão da ocupação do Grupo "Paralisar para Mobilizar" na UFRB, que saiu do movimento pior do que entrou, sem apoio da maioria dos estudantes e enfraquecido o suficiente para não conseguir metade da pauta (extensíssima, por sinal).

Mas, os últimos acontecimentos abrem caminho para discussões mais profundas. Sobre autonomia, sobre violência e sobre privilégios.

Ditadura Militar, não muito longe de nós na História: Limitação dos direitos individuais, abuso de poder, a anti-democracia. Os estudantes foram os grandes atores sociais na luta contra o regime autoritário. Na abertura política, a polícia ficou impedida de entrar no espaço da Universidade, salvo autorização formal, como forma de garantir, mesmo que simbolicamente, a autonomia e a liberdade.

Só que de 1980 até 2011 já se passaram 31 anos. Não vivemos mais uma ditadura, temos a garantia de espaços diversos para expressão de ideias, formação de grupos, organização de entidades civis. Hoje, outros problemas nos atingem. E como nos Anos de Chumbo, a violência ainda persiste. De outras formas, com outros algozes e outras vítimas.

A questão é que não vivemos em bolhas de segurança. Não é possível entrar no espaço acadêmico e lá estar protegido da violência insana, porque a Universidade não está deslocada do seu tempo, muito pelo contrário. E se tem violência nos campi por todo Brasil e o papel da polícia é defender o cidadão (matéria pra um outro post) em qualquer lugar que ele se encontre, não há porque encampar uma luta ambientada nos anos 70.

O usuário com nível superior não é menos culpado de sustentar o tráfico. A maconha que o estudante da USP usa e o crack que o bandido que rouba e mata consome têm a mesma raiz social: são fornecidos por traficantes, que devem estar esbanjando fortuna no Paraguai, enquanto outros morrem em nome dos territórios e dos vícios.

É preciso se despir das velhas armaduras, dos discursos prontos e da rebeldia sem causa. Se não pensarmos num país em que o diálogo prevaleça, chegaremos muito em breve à barbárie. E ademais, depois de tanta luta e da conquista dos direitos fundamentais pela Constituição Cidadã de 88, não há lugar para a subversão. Num Estado de Direito, tratar iguais com diferença, ou se trata de política de reparação ou é puro privilégio.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Meninas boas vão para o céu... Meninas más vão pra onde quiserem...

Desde que terminei o curso de Letras há alguns anos (mentira! muitos anos! 11 pra ser mais precisa), tenho tentado me manter fiel à leitura e isso não é tarefa fácil. Mulheres modernas têm que fazer malabarismos para serem modernas. Mesmo as que não têm filhos (como eu!), acabam tendo triplas jornadas, especialmente se forem professoras (como eu também!). E por serem professoras, nesse caso, deveriam ler o tempo todo, mas nem sempre têm tempo! Santa contradição!

Então, a fila do banco, a viagem pro trabalho, a espera no dentista, todas essas migalhas de tempo fracionado, dependem de um esforço, de uma disciplina quase jesuítica pra não serem desperdiçadas.

Nesse caso, eu me contento com migalhas. E devoro com fome de tudo.

É o que Mario Vargas Llosa está me ensinando com o seu "Travessuras da Menina Má". É um romance delicioso, de narrativa concisa e cheio de tudo o que mais gosto numa boa história: amor sem pieguices, mas com emoção; pano de fundo histórico; detalhes na medida certa, capazes de nos fazer estar no lugar descrito: Peru, Paris, Londres, Tóquio... e o que mais houver nessa incansável busca pela felicidade, ou pela sobrevivência útil, de Ricardito e sua chilenita. Ela vai pra onde quiser...

E eu, vou até onde Llosa me levar...